Os registros estelares de uma notável odisseia espacial – Becky Chambers

E finalmente eu concluí a leitura do terceiro livro da saga Wayfarers Series, de Becky Chambers. A palavra “saga” seria um indicativo de que mais livros dessa série estão em planejamento? Eu sempre achei que se tratava de uma trilogia, mas ao realizar uma rápida pesquisa pelo nome da suposta “trilogia”, me deparei com o termo “saga” no próprio blog da editora Darkside, a casa de Chambers no Brasil.

Os acontecimentos narrados neste terceiro volume, cronologicamente, se dão logo após o término do primeiro livro da saga, “A longa viagem a um pequeno planeta hostil”. O livro dois da saga (“A vida compartilhada em uma admirável órbita fechada”) é uma espécie de spin-off, mas, justamente por ter sido publicado na sequência, essa também é a ordem que eu sugiro a leitura, embora não seja obrigatória.

Para quem não leu ainda a saga, fique tranquilo que não darei spoilers do primeiro livro.

Como o próprio título do Livro I sugere, uma longa viagem é realizada e o destino acaba sendo um planeta que, embora pequeno, é bem hostil. A viagem é feita numa nave que tem como objetivo fazer buracos de minhoca no espaço-tempo, e conta com uma tripulação interespécie. O que isso significa? Bom, a saga toda traz um universo muito mais amplo e cheio de vidas sapientes, não necessariamente humanas. Os terráqueos tiveram de deixar a Terra porque, bem, acabamos com todos os recursos e possibilidade de sobrevivência existentes no Planeta e a solução foi partir para fora, seja habitando outros planetas como Marte, ou iniciando novas colônias exodonianas, cujas novas gerações jamais saberiam o que é pisar, de fato, no chão, por viverem na Frota, ou seja, em enormes naves espaciais que estão constantemente em órbita, simulando a vida da melhor forma possível.

Embora a história narrada neste terceiro livro se dê logo após a chegada da tripulação mencionada acima ao pequeno planeta hostil, nós não iremos, de fato, acompanhar as aventuras (ou seriam desventuras?) dessa tripulação. Vamos ter notícias, sim, mas é só. A narrativa do terceiro livro se concentra na Frota e na sua população.

Se no primeiro livro, o foco não era a espécie humana, eu ouso dizer que no terceiro, ela toma seu protagonismo, ainda que de forma contemplativa.

Falando em contemplativa, acho bom deixar o alerta às pessoas que se interessarem a ler esta saga, de que, em geral, a narrativa da Becky Chambers, por mais que se dê num cenário todo fictício, de alta tecnologia, viagens espaciais, uau, ela é muito mais descritiva que qualquer outra coisa. Você consegue imaginar como é o espaço? Eu sei que a cultura pop não favorece muito isso (talvez com exceção de 2001 – Uma odisseia no espaço e Gravidade, que me vieram à mente agora), mas o fato é que é um silêncio total. Um vácuo. Pois é, pensem no mais absoluto vácuo. É um vazio. Do vazio nada parece muito interessante, não é mesmo? A menos que você seja brilhante como Chambers. No terceiro livro, pode haver uma sensação de monotonia para o leitor que está em busca de muito agito. Você está em órbita, e nada demais parece acontecer.

Só que o objetivo é exatamente esse. É fazer o leitor se deparar com toda a imensidão do universo lá fora e mesmo assim ter os mesmos anseios, os mesmos medos, os mesmos sonhos, as mesmas inquietações e dúvidas que temos aqui, muito tranquilinhos sentados na cadeira do nosso escritório ou na poltrona da sala.

Eu terminei esse livro realmente emocionada, não especificamente por nenhum episódio ou capítulo dele, mas ao juntar todas as reflexões que sua leitura me proporcionou. Claro que fiquei devastada em algumas passagens, que mostram a vulnerabilidade e a crueldade humana, não importa onde estivermos, mas também acho impossível terminar o livro e não se deslumbrar com a maravilha que é a existência da vida, independente de quais forem suas crenças religiosas sobre o assunto.

Como o próprio nome já diz, este livro é uma compilação de registros estelares. Há uma personagem, Ghuh’loloan, que de fato os redige e, por não ser humana, é muito curioso ter essa perspectiva de como seríamos lidos por outras espécies. Outros personagens, cada um à sua maneira, por exemplo, Kip em sua adolescência e tornando-se um jovem adulto; Isabel, uma arquivista-sênior, para quem registrar tudo na Frota é imperioso; Eyas, uma das responsáveis pelos “sepultamentos” daqueles que morrem na Frota, Sawyer, um jovem que conheceu a vida em solo, mas queria começar algo novo na Frota; e Tessa, uma mãe que vive muitos momentos de maternidade solo com seus dois filhos, porque seu marido tem um emprego fora da nave Astéria, uma de muitas da Frota, e onde boa parte da história do livro se passa. Todos eles também somam seus próprios registros, ainda que não estejam coletando informações para nenhum público especificamente, como Ghuh’loloan o faz. A narrativa é praticamente toda em terceira pessoa, exceto quando traz as notícias de Ghuh’loloan para o Canal de notícias públicas.

Mais uma vez, Chambers reforça a importância da memória e do valor da História, dessa vez, homenageando a arquivística e seus profissionais (no primeiro livro, a homenagem fica aos historiadores), e eu deixo registrado, portanto, mais uma vez, todo meu carinho pela autora de ficção científica que prestigia sempre as Ciências Humanas ao lado das outras Ciências.

O fato de haver uma personagem que é mãe e que vive uma experiência tão parecida com a minha (mãe solo por alguns dias por motivos de trabalho do marido), me conquistou de um jeito que mal consigo expressar. Obrigada, real, por isso, Chambers. A personagem trouxe ainda mais poder para essa leitura, já tão rica.

Garanto que quem tiver esse perfil mais contemplativo e ler a série, irá se encantar. Muitas reflexões irão surgir durante sua leitura, e é isso que a boa literatura de ficção científica deve ser capaz de trazer: o olhar humano se voltar para a própria humanidade dentro de nós.


Dados técnicos do livro:

  • Capa dura: ‎352 páginas
  • Autora: Becky Chambers
  • Editora: ‎ Darkside; 1ª edição (4 novembro 2020)
  • ISBN-10 ‏ : ‎ 859454216X – ISBN-13 ‏ : ‎ 978-8594542168
  • Título Original: Record of a Spaceborn Few
  • Tradução: Flora Pinheiro

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